segunda-feira, 8 de setembro de 2014

//Racionamento de professores na Educação Infantil de SP

Desfalque anunciado há meses, cassação de férias e aumento nas aposentadorias causam falta de profissionais para todas as crianças, que passam por "rodízio"
//Por Cinthia Rodrigues
Os Centros de Educação Infantil da cidade de São Paulo enfrentam um racionamento de professores de que pouco se fala - a exemplo do comportamento do governo do estado sobre a crítica situação do Sistema Canteira. Na unidade em que meus filhos estudam, por exemplo, faltam profissionais para todas as crianças, e a direção organiza quem serão aquelas que serão atendidas em determinados dias ou semanas. 
Não é de hoje que o problema das creches tem sido anunciado, tanto que foi um dos temas da greve que aconteceu no início do ano. Dois fatores conhecidos da administração “baixaram o volume” de professores, situação que deve se manter até 2015.
O primeiro desses fatores é a decisão de caçar as férias de professores em janeiro e distribuí-las ao longo do ano. Para cumprir determinação correta do Ministério Público de que era necessário dar opção de atendimento às famílias que não consigam garantir férias, a Prefeitura tomou a medida errada. Em vez de contratar profissionais para a situação emergencial do período do recesso escolar, usou o efetivo e prejudicou 91 unidades. Apenas com isso, já foram ou ainda serão afastados durante o ano 1.273 professores.
Outro fator antecipável era o volume maior de aposentadorias para 2014. Muitos servidores que eram da Assistência Social e passaram à área de Educação na gestão Marta Suplicy acumularam o tempo mínimo para se aposentar há anos, mas esperaram completar dez anos na Secretaria da Educação e incorporar benefícios. A Prefeitura diz não ter os dados de quantas pessoas estão nesta situação, mas técnicos das Diretorias Regionais afirmam que os pedidos de aposentadoria triplicaram no início do ano.
Com o quadro anunciado em andamento, a Prefeitura deixou para cada direção adotar soluções de racionamento em suas unidades. Diferentemente do ensino fundamental, no qual os alunos podem ficar sem aula, mas na escola, e até serem reagrupados, na educação infantil a falta de professores resulta em crianças fora da escola. 
Por lei, cada professor tem um número máximo de crianças com que pode ficar. Por exemplo, no berçário (1 ano de idade) são sete por educador. Nas salas com faixa de 2 anos de idade, um profissional para cada nove alunos. Quando houver mais que isso, um professor “volante” deve entrar na sala. Mas, surpresa: faltam volantes. Diante de todas essas possibilidades, os quadros de substitutos estão incompletos.
Na quarta-feira passada, depois de uma produtiva reunião de pais sobre estratégias que escola e familiares estavam tomando em relação ao desfralde, a diretora anunciou que, "constrangida", teria de pedir para metade da turma da faixa dos dois anos de idade voltar para casa no período da manhã. A professora estava gravemente doente, afastada durante alguns dias, e não havia substituta.
Um pai que trabalha à noite estava lá e voltou com seu filho: nas próximas três manhãs, ele seguraria o sono para ficar com a criança. Outra mãe, em licença maternidade, ficou também com o aluno sem professora e assim por diante. Antes, em maio, o berçário já tinha organizado um rodízio de semanas entre as mães.
Questionada por CartaFundamental, a Prefeitura informou que “em 2014, a Secretaria Municipal de Educação realizou dez convocações de candidatos ao cargo de Professor de Educação Infantil para suprir as necessidades apontadas pelos Centros de Educação Infantil (CEIs) em toda a cidade”. Ao todo, 1.059 profissionais concursados foram nomeados contra 785 de todo o ano de 2013. Número que não é suficiente para combater a “seca” deste ano.
 

Saiba Mais sobre o tema:

Publicado na edição 61, de setembro de 2014 

domingo, 7 de setembro de 2014

Adoção do turno integral é fundamental para o bom rendimento dos alunos, avalia gestora municipal




por Portal Brasil publicado : 04/09/2014 11:06
Identificar os pontos fracos na aprendizagem dos alunos, traçar metas claras para superá-los e aprimorar a gestão são algumas das boas práticas adotadas por 215 escolas públicas que atendem a alunos de baixa renda familiar e que conseguiram melhorar indicadores educacionais entre 2007 e 2011.
As práticas comuns a essas instituições e que têm permitido avanços foram identificadas pela pesquisa 'Excelência com Equidade', produzida pela Fundação Lemann em parceria com o Itaú BBA.
Os anos iniciais do ensino fundamental do (1º ao 5º) foram o foco da pesquisa. A análise teve como base um universo de cerca de 15 mil escolas com estudantes de baixo nível socioeconômico e chegou a essas 215 instituições que apresentaram evolução no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) de 2007 a 2011. Elas apresentaram resultado satisfatório na Prova Brasil 2011, com pelo menos 70% dos alunos com nível adequado em matemática e em língua portuguesa.
A partir daí, essas escolas foram comparadas a outras de nível socioeconômico e contexto similares que tiveram desempenho semelhante no Ideb em 2007, mas não atingiram o mesmo avanço nos indicadores educacionais em 2011. No estudo qualitativo da pesquisa, buscou-se identificar as práticas e estratégias comuns das escolas que passaram pelos critérios, enquanto o estudo quantitativo procurou mapear as características dessas 215 unidades que podem explicar o sucesso e as ações que conseguiram implementar.
Os pesquisadores constataram que um dos diferenciais é que essas instituições monitoram as deficiências e os avanços dos indicadores educacionais e fazem avaliações constantes do desempenho dos alunos e profissionais da educação. Identificados os pontos a melhorar, são traçadas metas claras, com a participação dos educadores, e planejadas as estratégias para alcançá-las. O apoio e a participação efetiva das secretarias de Educação, sejam municipais ou estaduais, são apontados pela pesquisa como fundamentais em todo o processo.
Ao longo de todo o ano, professores, coordenadores e diretores são capazes de identificar os conteúdos que cada aluno domina e aqueles em que ainda precisa melhorar. “A vantagem desse modelo focado no aprendizado é que a escola é capaz de interferir assim que identifica um problema de aprendizagem, impedindo que os alunos fiquem para trás. O que os alunos estão ou não aprendendo é a base para a formação continuada dos professores, o reforço escolar”, registra o texto.
Em algumas escolas, o estudo identificou o pagamento de bônus a professores e a outros profissionais que conseguem cumprir as metas estabelecidas. Um maior montante de recursos disponíveis e a gestão eficiente com foco na aprendizagem estão entre os fatores apontados como determinantes. Outro aspecto que se verifica é a baixa ocorrência de problemas como insuficiência de professores, de pessoal administrativo e recursos pedagógicos.
“As condições, seja de infraestrutura, de cumprimento do currículo, são melhores nessas escolas do que nas demais com alunos de baixo nível socioeconômico. Nossa interpretação é que elas conseguem mais recursos do PAR [Plano de Ações Articuladas] por programas de adesão do governo federal e de algum tipo de articulação com os estados”, disse o coordenador de projetos da Fundação Lemann, Ernesto Martins Faria.
O cuidado com questões como segurança, organização e limpeza também estão relacionadas ao avanço no aprendizado, mostrou a pesquisa. Outro diferencial é a preocupação de diretores e professores em manter a disciplina, rotinas organizadas e assegurar a frequência e a pontualidade dos estudantes. Atividades extracurriculares, como prática de esportes e festas e apresentações estudantis, também aparecem como fatores que contribuíram.

A Escola Municipal Santa Maria Goretti, de Goiandira (GO), é uma das que integram a pesquisa. A diretora Zilah Vaz aponta a adoção do turno integral como fundamental para o bom rendimento dos alunos. No contraturno, cerca de 150 dos 300 alunos da escola têm aulas de reforço de matemática e português e atividades esportivas. Ela conta que os recurso de programas federais, como de incentivo à jornada integral e o de incentivo da cultura nas escolas, contribuem para ampliar as atividades.
Há ainda ações complementares, como palestras sobre educação ambiental e educação no trânsito. Algumas das atividades extras são decididas com a participação do conselho escolar, que tem pais de estudantes entre os integrantes.
Zilah Vaz destaca ainda o interesse dos professores. “Em sua maioria, são engajados, bem interessados em aprender mais e aplicar os conhecimentos. A coordenação pedagógica tem atuado no sentido de orientar sempre os professores”, explica.




Fonte:
Empresa Brasileira de Comunicação

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Rapper e professor do Grajaú 



sonha em



deixar São Paulo mais justa


Voluntário desenvolve projetos culturais na periferia da cidade.
Perfil de Robson Oliveira é parte da história da cidade.

Lívia MachadoDo G1 São Paulo
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Robson cresceu e vive no Grajaú, Zona Sul da cidade, e uma das áreas mais violentas de São Paulo (Foto: Arquivo pessoal)Robson cresceu e vive no Grajaú, Zona Sul da cidade, e uma das áreas mais violentas de São Paulo (Foto: Arquivo pessoal)



Aos 13 anos, Robson Martins de Oliveira compôs seu primeiro rap. Dois anos depois, foi levado por um amigo, ex-interno da Febem, hoje rebatizada de Fundação Casa, até o Centro de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente (Cedeca) de Interlagos, ONG que atua na região, para se apresentar. Após cantar, foi convidado para trabalhar como estagiário da instituição. Entre projetos sociais e musicais voltados para a comunidade, conheceu as obras de Paulo Freire, e percebeu que tinha vocação para ensinar. Nascido em São Paulo em 1984, morador da periferia (Grajaú), Formado em Pedagogia pela Faculdade Sumaré no ano 2008, concluiu seu curso com a Pesquisa "Hip Hop como Cultura, Movimento Social e Prática de Educação Popular",atualmente além de MC/Compositor também atua como professor da rede pública de São Paulo.
Ter crescido numa comunidade violenta me fez ter sacadas na vida que eu não teria se tivesse nascido em outro local. Eu sinto que vou trair esse lugar se eu for embora daqui"
Robson Martins de Oliveira, professor e rapper
 “Sou um educador que cresceu no Grajaú e consegue atuar aqui. Tem uma molecada que precisa caminhar certo porque eles vêm na sombra. Pessoal de 15, 16 anos.”
Desde que começou na área, desenvolve projetos que promovem cidadania e integração social. Adaptou as teses de Paulo Freire à cultura do hip hop. “O que faço é instrumentar as pessoas contra as arbitrariedades do sistema. Discutir como a comunidade pode ser segura, limpa, iluminada para se defender. São praticas de organização popular”, explica ele.
Junto com a equipe da biblioteca do CEU criou o sarau “Quinta em movimento”, evento que acontece toda primeira quinta-feira do mês na quadra da caixa d'água, local conhecido na região e que já abrigou uma escola de samba. O projeto nasceu anual em 2009, e virou mensal a partir de 2011.
“A ideia é fomentar a prática de leitura. Sempre convidamos um autor em evidência, um tema e uma banda residente. A banda toca musicas, e os participantes podem se oferecer pra cantar, recitar. Fazemos leituras de filmes, discutimos sobre música também. Cada edição aborda um assunto.”
Rapper e educador se inspirou no escritor Paulo Freire (Foto: Arquivo pessoal)Rapper e educador se inspirou no escritor
Paulo Freire (Foto: Arquivo pessoal)
Oliveira se define como um professor polivalente. Criado e nascido no Grajaú, ele revela que jamais deixaria a região. Para ele, seu coração muda de compasso ao passar pela Ponte do Socorro, uma espécie de cruzamento da Avenida Ipiranga com a São João para o rap. “Ter crescido numa comunidade violenta me fez ter sacadas na vida que eu não teria se tivesse nascido em outro local. Sinto que vou trair esse lugar se for embora daqui.”
O carinho não é limitado à região. “Apesar das desigualdades e opressões, não me vejo em outra cidade. Sinto que tenho voz em São Paulo.” A boa relação com a cidade, entretanto, não enfraquece a crítica. “Meu trabalho é tentar arrumar essa casa que é São Paulo. Uma casa que tem muita gente que não lava a louça, recebe pra cuidar do jardim e não cuida. Há muito para ser feito”.