//Por Cinthia Rodrigues
Os Centros de Educação Infantil da cidade de São Paulo enfrentam um racionamento de professores de que pouco se fala - a exemplo do comportamento do governo do estado sobre a crítica situação do Sistema Canteira. Na unidade em que meus filhos estudam, por exemplo, faltam profissionais para todas as crianças, e a direção organiza quem serão aquelas que serão atendidas em determinados dias ou semanas.
Não é de hoje que o problema das creches tem sido anunciado, tanto que foi um dos temas da greve que aconteceu no início do ano. Dois fatores conhecidos da administração “baixaram o volume” de professores, situação que deve se manter até 2015.
O primeiro desses fatores é a decisão de caçar as férias de professores em janeiro e distribuí-las ao longo do ano. Para cumprir determinação correta do Ministério Público de que era necessário dar opção de atendimento às famílias que não consigam garantir férias, a Prefeitura tomou a medida errada. Em vez de contratar profissionais para a situação emergencial do período do recesso escolar, usou o efetivo e prejudicou 91 unidades. Apenas com isso, já foram ou ainda serão afastados durante o ano 1.273 professores.
Outro fator antecipável era o volume maior de aposentadorias para 2014. Muitos servidores que eram da Assistência Social e passaram à área de Educação na gestão Marta Suplicy acumularam o tempo mínimo para se aposentar há anos, mas esperaram completar dez anos na Secretaria da Educação e incorporar benefícios. A Prefeitura diz não ter os dados de quantas pessoas estão nesta situação, mas técnicos das Diretorias Regionais afirmam que os pedidos de aposentadoria triplicaram no início do ano.
Com o quadro anunciado em andamento, a Prefeitura deixou para cada direção adotar soluções de racionamento em suas unidades. Diferentemente do ensino fundamental, no qual os alunos podem ficar sem aula, mas na escola, e até serem reagrupados, na educação infantil a falta de professores resulta em crianças fora da escola.
Por lei, cada professor tem um número máximo de crianças com que pode ficar. Por exemplo, no berçário (1 ano de idade) são sete por educador. Nas salas com faixa de 2 anos de idade, um profissional para cada nove alunos. Quando houver mais que isso, um professor “volante” deve entrar na sala. Mas, surpresa: faltam volantes. Diante de todas essas possibilidades, os quadros de substitutos estão incompletos.
Na quarta-feira passada, depois de uma produtiva reunião de pais sobre estratégias que escola e familiares estavam tomando em relação ao desfralde, a diretora anunciou que, "constrangida", teria de pedir para metade da turma da faixa dos dois anos de idade voltar para casa no período da manhã. A professora estava gravemente doente, afastada durante alguns dias, e não havia substituta.
Um pai que trabalha à noite estava lá e voltou com seu filho: nas próximas três manhãs, ele seguraria o sono para ficar com a criança. Outra mãe, em licença maternidade, ficou também com o aluno sem professora e assim por diante. Antes, em maio, o berçário já tinha organizado um rodízio de semanas entre as mães.
Questionada por CartaFundamental, a Prefeitura informou que “em 2014, a Secretaria Municipal de Educação realizou dez convocações de candidatos ao cargo de Professor de Educação Infantil para suprir as necessidades apontadas pelos Centros de Educação Infantil (CEIs) em toda a cidade”. Ao todo, 1.059 profissionais concursados foram nomeados contra 785 de todo o ano de 2013. Número que não é suficiente para combater a “seca” deste ano.
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